Há quem segure os livros em um ônibus lotado, há aqueles que sorriem e dizem bom dia às cobradoras e há ainda uma minoria que faz as duas coisas. Ele não, pelo contrário vivia emburrado. Como um vampiro que detesta a luz do sol, toda manhã ele exibia ao mundo um mau humor de parar o trânsito já engarrafado.
Foi numa dessas que ele sentou ao lado de uma otimista nata. Ela ouvia, através de um fone branco, uma música eletrônica que podia ser transcrita pelo passageiro do fundo que por sinal não falava inglês. Ele agüentou firme por algumas paradas, até que a cutucou. Houve um pequeno diálogo, ela foi impassivelmente simpática, pediu desculpas, comentou o porquê de ouvir música em um volume tão alto, logo tão cedo. Ela falou, comentou e irradiou luz com um sorriso impagável de quem ama a vida.
Mas com aqueles óculos escuros, que escondiam não só olheiras, mas também indiferença pela conversa ofertada, ele não pôde enxergar que todos os dias ele nega a sua natureza de ser humano.
