Tuesday, April 01, 2008

O peso da consciência


É quase impossível julgamos um bebê como feio, mas note que no começo da frase há a presença do quase.
Frederico nasceu prematuro, aos 7 meses decidiu encarar de uma vez o mundo, talvez se soubesse como seria sua vida ficaria no útero de sua mãe por pelo menos mais uns 4 meses.
Durante a primeira festinha realizada em sua homenagem os elogios eram escassos, o que realmente se comentava era sua aparência: Nossa! Que bebê forte, alguns foram ainda mais indiscretos, trovejando palavras com teores depreciativos.
Na escola fora sempre o excluído, servia apenas como motivo de chacota. Possuía inúmeros apelidos, desde porquinho a elefante. Devido à clausura, Frederico entregava-se inteiramente aos estudos, passando horas a fio estudando o que só veria no ano seguinte.
Nem preciso falar de sua vida amorosa, esta era um fracasso total, nenhum beijo, nenhum olhar, nada! As únicas garotas que se aproximaram dele desejavam apenas que seus trabalhos fossem feitos, e o bobo assentia com tudo.
Frederico não foi um garoto de falar muito, sempre calado e sempre chacoteado. Ele não via a hora de terminar a escola, acreditava que após tudo aquilo encontraria pessoas maduras e capazes de aceitá-lo, pessoas que apreciariam todo o conhecimento embargado por ele.
Finalmente seu desejo se concretizou. Terminou o ensino médio e decidido como sempre, escolheu o curso a seguir na faculdade. Durante o ensino superior nada foi diferente, contudo isso de longe acabava com o sonho de ser acolhido pela sociedade, ele esperaria pelo emprego.
Formado em Letras, o ainda gordo Frederico não esperava encontrar dificuldades pelo caminho, mas em nenhuma das instituições que fora encaminhado a trabalhar o aceitavam.
Acabou por trabalhar como caixa de supermercado, durante os dois últimos anos de sua vida Frederico ouviu desaforos, eram clientes estressados, motoristas exaltados, todos descontavam sua raiva no gordo. O xingavam de tudo que fazia referencia à pessoas obesas. Derradeiramente, numa quinta-feira, Frederico matou-se com um tiro na boca, antes disso desferiu vários tiros em todos os gordos que entraram em seu caminho, Frederico queria poupar sua “raça”, e era com essa palavra que na sua carta de morte ele definiu as pessoas com o seu biótipo, “uma raça destinada a reclusão”.